Entrevista: Osnei Rocha, o Roko

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O artista Osnei Rocha é um grande nome da ilustração brasileira, trabalhando muito bem tanto com o público infantil quanto com o público adulto, sob o pseudônimo de Roko.entrevista-osnei-rocha-roko-ilustração-infantil-desenhos-5Tivemos o privilégio de trocar uma ideia bem legal com esse mestre da ilustração nacional. Na nossa conversa, Osnei falou sobre a sua carreira, a experiência que teve com quadrinhos, suas referências artísticas, como surgiu o “Roko”, entre outros temas.

Enfim, confira a entrevista completa abaixo:

 

Dionisio Arte: Osnei, você começou na publicidade, certo? Como foi a transição da publicidade para a ilustração artística?

Osnei Rocha: Comecei na publicidade bem no início dos anos 70 em Londrina, no Paraná. A agência era pequena, onde todos fazem de tudo.

Eu era layoutman, arte finalista, ilustrador e ainda acompanhava a produção gráfica (risos)… Essa “transição” como você chama não foi tão drástica assim, uma vez que, do ponto de vista técnico, ilustração para anúncio ou editorial é a mesma coisa. Só mudam os conceitos. Artisticamente é igual.

 

DA: Como surgiu a oportunidade de fazer quadrinhos? Você sempre foi fã ou é algo meramente profissional?

Osnei Rocha: Sempre fui fãnzaço dos quadrinhos e sonhava em ser desenhista de HQ na minha vida profissional. Mas, quando cheguei em São Paulo pra dar continuidade à minha carreira, percebi logo que não sobreviveria só de quadrinhos…

Ainda hoje é um trabalho muito mal remunerado, mas naqueles tempos era pior. Acabei enveredando mais pela ilustração, e cartoons em geral, embora vez ou outra tenha trabalhado com quadrinhos. Fiz muita HQ para a revista “Nosso Amiguinho”, além de ilustrações para “o miolo”.

Mas, como é uma publicação ligada aos adventistas, ela só é vendida através de assinatura e praticamente dentro do meio religioso deles. Depois, já nos anos 90, fiz algumas HQs para o mercado americano como em “Cadillac & Dinossaurs” e “Elf Quest” e também para o mercado nacional “Porrada!”, “Pau Brasil” e “Metal Pesado”.

 

DA: Quais são suas referências artísticas? Elas permanecem as mesmas desde o início da sua carreira ou houve alguma mudança?

Osnei Rocha: São várias! Nos desenhos infantis, o pessoal belga e francês (Peyo, Uderzo, Franquin, etc), do espanhol F. Ibanez (Mortadelo e Salaminho) e muitos norte-americanos. Nas ilustrações, minha escola foi principalmente a Disney. Nos desenhos mais realistas e fantásticos onde assino como Roko, as influências basicamente foram de Juan Gimenez, Bisley, José Ortiz e outros tantos…

Como disse, tive e tenho muitas referências e influências. E continuo tendo até hoje, mas de artistas mais jovens, que trazem novos ares e técnicas para as ilustrações e desenhos. Claro, todas essas influências se mesclam aos meus estilos de trabalho e se transformam no meu próprio traço.

 

DA: De onde surgiu a ideia e por qual motivo você migrou para as ilustrações de livros infantis? Como foi essa passagem? Teve dificuldades em mudar o estilo da sua linguagem? 

Osnei Rocha: Sempre ilustrei mais na linha infantil, desde o inicio da minha carreira. Tanto nas ilustras quanto nos quadrinhos, a linha infantil sempre esteve à frente. E também sempre trabalhei com o editorial, particularmente de revistas (Playboy, Status, Placar, Veja, etc.).

Daí, ir para o editorial de literatura ou didático foi um caminho meio lógico. Não teve essa transição ou dificuldade com a linguagem destes veículos. Sempre trabalhei com livros, revistas, publicidade e HQs simultaneamente.

Acho que toda a minha geração de artistas gráficos teve essa mesma trajetória. Diferentemente dos artistas norte-americanos ou europeus, que se dedicam profissionalmente à um mesmo segmento quase a vida inteira, nós aqui em “terra-brasilis” não podemos nos dar esse luxo. O mercado é pequeno e restrito e temos que ser versáteis, atuando em várias frentes.

 

DA: Conta um pouco sobre como surgiu o “Roko”. Foi para suprir algum tipo de necessidade ou apenas uma vontade sua de trabalhar com um estilo diferente? 

Osnei Rocha: A partir de 1989 comecei a desenvolver um estilo mais adulto e “hagaqueano” e criei então o pseudônimo “Roko”, pois ficaram duas linhas muito distintas… eram as ilustrações infantis, cartoons, charges, caricaturas, etc. e as adultas ou voltadas para o público teen.

Assim, acabei abrindo dois mercados de trabalho (risos)… Inicialmente, comecei a atuar nesta linha mais realista pra suprir uma necessidade artística pessoal. Me sentia incompleto desenhando e ilustrando só para o segmento infantil. Sempre curti muito os trabalhos mais realistas e achava que tinha algo a dizer além do universo infantil.

Criei o Roko meio que por brincadeira, uma espécie de Dr. Jekyll (Osnei) e Mr. Hyde (Roko) do lápis (risos)… E não é que pegou? Hoje, tenho dois mercados e clientes bem distintos, das ilustras infantis como Osnei e trampos realistas como Roko. Alguns clientes meus não sabem até hoje destas duas personalidades artísticas e acabo ficando na minha, me divertindo com isso (risos)!

 

DA: Você está na ativa a mais de 40 anos. Pela sua experiência, o mercado de arte no Brasil evoluiu desde a época que você começou ou ainda continua a mesma coisa? Se mudou, o que mudou e o que pode melhorar?

Osnei Rocha: Arte e cultura sempre evoluem… Um pouco mais rápida ou mais lentamente, mas evoluem! No Brasil não é diferente.

O que mudou bastante foi a posição das artes plásticas no mercado nos últimos 25 anos! Seja na publicidade, no editorial ou na mídia cultural em geral, o desenho e a ilustração hoje não ocupam mais o lugar de destaque de antes.

Antes, todos os cartazes de filme eram ilustrados, a maioria das capas de revistas eram ilustradas, assim como boa parte dos anúncios, etiquetas, rótulos, etc. Mesmo as matérias de jornal e outras publicações, tinham um número bem equilibrado de fotos e ilustrações. Hoje, a maioria é foto ou imagens da web, tratadas digitalmente com técnicas e ferramentas diversas.

A era digital trouxe esta nova forma de manifestação gráfica. Isso encolheu bastante o mercado do desenhista e ilustrador clássico, ou seja, aqueles que ainda trabalham com arte figurativa e ainda desenham de forma tradicional. Já para os quadrinhos, até que está havendo um mercado consumidor razoável, seja na mídia impressa ou digital, através dos e-books.

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DA: Além das ilustrações, você também curte outros tipos de arte, como o graffiti, por exemplo?

Osnei Rocha: Gosto muito dos graffitis, particularmente daqueles “beeeem graffiti” mesmo, meio tribal com a característica típica de arte de rua.

Odeio pichação, embora alguns intelectualóides chamem de arte ou mesmo de graffiti. Pichação pra mim é simples poluição visual.

Tem um artista de paredes muito conhecido e badalado hoje em dia, o Kobra, mas que pessoalmente não considero como grafiteiro. Seu trabalho é primoroso, com técnica apuradíssima, desenha muito, mas pra mim ele é um ilustrador e não um grafiteiro. Talvez um ilustrador de muros,  paredes e prédios, mas perdeu aquela cara típica do graffiti.

 

DA: Conta pra gente como é o seu processo criativo.

Osnei Rocha: Hmm… meio anárquico (risos)… Não tenho um processo específico pra criar, é meio intuitivo, automático e espiritual (risos)… A “coisa” vem e pronto!

Tenho processo calculado para produzir, seja a parte de desenhos ou pinturas, artes finais, etc. Sou bem organizado neste sentido, senão o trabalho e os compromissos embolam o meio de campo. Mas, a criação é feita de forma totalmente aleatória.

Quando entro em contato com o início do trabalho, assim que tenho o briefing ou sinopse de alguma história para ilustrar, as ideias e imagens do material à serem trabalhados simplesmente vão surgindo na minha mente à medida que me ponho a par dos assuntos. Não tem essa de estar ou não inspirado (risos).

 

DA: Tem alguma mensagem em especial ou dica para quem está começando (ou pensando em começar) uma carreira artística?

Osnei Rocha: A dica que acredito todas as profissões precisam, artísticas ou não, é a de que sem muita ralação, não se chega lá. Não existe fórmula mágica nem atalhos pra se formar um bom desenhista ou ilustrador em geral.

As pessoas leigas podem ter o direito de acharem que o artista nasce pronto e que tudo em arte é muito fácil e “mágico”, mas nós que somos os artífices da arte não podemos acreditar nesta fantasia. Existe o talento nato, a alma de artista, mas nada disto substitui os anos de estudo e dedicação à técnica do desenho.

Desenhar figuras humanas, conhecendo todos os músculos e funções, o conhecimento da perspectiva, luz e sombra e volumes em geral e, posteriormente, o uso das cores e suas múltiplas técnicas é trampo brabo e requer disciplina e esforço pessoais. E muita, muita informação mesmo.

O desenhista ou ilustrador tem que ter uma bagagem cultural primorosa, não basta apenas desenhar bem. A cultura geral é um dos instrumentos mais poderosos do artista plástico.

Gostaram da entrevista? Pra gente foi um prazer enorme trocar essas com o mestre Osnei Rocha, o Roko!

E para saber mais sobre a carreira e a arte do cara, não deixe de conferir o post completo que fizemos sobre ele AQUI.

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